quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Amigo Íntimo

Nem se eu forçar muito a memória eu recordo a primeira vez. Mas, quando foi mesmo a última vez que nos conhecemos? Lembro. Foi no final do ano passado, quando apresentamos e aproximamos nossas imperfeições. Mais felizes, criamos intimidade.
   
Conhecer alguém neste mundo não é ter intimidade. Ser íntimo de alguém envolve frequentar a casa, saber o nome do pai e da mãe, abrir a geladeira, colocar os pés no sofá, tomar banho de mar sem se importar com a impressão que vai causar ou com a insegurança que um biquini dá.

Conhecer alguém é superficial. Sabe-se mais ou menos onde fica o apê; na despedida, sempre vai aparecer; não tratando-se de um órfão, dos pais não precisa nem saber e marcar um chope no final do expediente num quiosque coladinho ao escritório é o mais perto que chegam de um passeio na praia.

Intimidade, meu amigo, é para quem quer. Conhecer, todo mundo pode. Intimidade exige tempo, companheirismo, entrega e sofrimento. É! Sofrimento. Dói abrir as janelas e desnudar os segredos da alma para alguém que ainda não é seu amigo de infância.

Mas não é só sofrimento. É muito bom saber que nós não nos tornamos íntimos de qualquer um assim a torto e a direito (e para explicar porque tal seleção é feita, a história de vida de cada um que conte o seu conto, aumentando de vez em quando um ponto). Francamente, para ser íntimo de alguém, há a necessidade inegociável de se mostrar mais o torto. O direito é para o conhecido ver, mostrar ou querer. Pensando cá com meus grilões, isto talvez explique o porquê do direito ser mais aparente e nada profundo. 

Tudo isto eu pensei enquanto fazia a primeira viagem de avião depois de nos tonarmos íntimos. O primeiro adeus já me mata de saudade, mas me trouxe algo muito bom! Explico. Antes dessa tal intimidade, os únicos pensamentos em minha cabeça nas nuvens me matavam na primeira oportunidade. Intimidade, a partir de agora, para mim, é indispensável. Hoje, pensar em nós salvou-me de mim mesma

"Amigo é Casa" Zélia Duncan


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