quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Pertencer

Sinto que não faço parte.
E me reparto.
Em partes desiguais.
E satisfaço.
Quem me vê, até pensa que pertenço.
Quem me enxerga, sabe que não.


terça-feira, 29 de novembro de 2016

Contos de provador - Chanel Nº5

Na entrega das peças, já na hora da despedida, o bate papo com a cliente marcou a minha noite:

_ Não teremos amigo oculto este ano, essa crise quebrou o orçamento dos funcionários.

_ Você me fez lembrar de quando eu era bem mais nova,cabelos negros, lisos e encantadores.Fizemos o amigo oculto da minha empresa, era meu primeiro emprego. Meu atual marido também participou desse amigo oculto, mas ainda não seria naquele momento que se revelaria mais do que amigo. Quem tirou meu nome na brincadeira de final de ano foi o gerente da empresa. Ele me deu um Chanel Nº5.

_ Uhm, que delícia!

_ Eu também achei o perfume uma delícia, mas o pessoal da empresa começou a dizer que eu tinha um caso com o gerente, já que se tratava de um presente muito caro.

_Eita, não tinha pensado nisso.

_ Pois é,nem eu, mas os colegas de trabalho daquela época pensaram. Não sei se meu gerente também pensou na possibilidade.

_ Ainda usa o mesmo perfume?

_Não. Naquela época eu achava uma delícia, mas hoje conheci o processo e de onde vem a matéria prima, parece que extraem da Amazônia, de uma maneira não muito ética. A gente muda nossos valores, ainda bem! Ah, sim! Estou casada desde aquela época com a mesma pessoa, que não me deu nenhum perfume caro, só tratou de me conquistar com armas à prova do tempo.

Esta última palavra, "tempo", saiu de seus lábios com a mesma velocidade em que seu corpo cruzou a porta; pareceu-me meio arrependida de relatar um pedacinho de si a uma estranha conhecida. Acenei com uma das mãos e agradeci o compartilhamento espontâneo da história.

Claro que lembrei da célebre frase de Marilyn Monroe. Ao ser questionada sobre o que usava para dormir, respondeu "Apenas duas gotinhas de Chanel Nº5." Apenas duas gotinhas de Chanel Nº5 e tempo para mostrar o que realmente importa nessa vida.

domingo, 13 de novembro de 2016

Sobre Ser Egoísta

Eu só queria a "grandeza" e a paz do seu abraço.
Só queria muitas manhãs de alegria.
Queria rever aquela bermuda rasgada.
E só queria o charme displicente de uma certa camiseta desbotada.

Eu só queria flutuar novamente no mar sob seu olhar.
Só queria sentir o braço encolher ao te enlaçar.
Queria o virar de lado para melhorar a respiração da noite.
E só queria dar de cara com minha fragilidade debaixo do seu afago.

Eu só queria compartilhar um sentimento que não mudou.
Só queria poder dizer que, com você, me permiti o inimaginável:
Queria um futuro para nós dois, quem sabe três.
E só queria ter a chance de, ao pé do seu ouvido, contar estes e outros segredos.

Eu queria, mas meu medo egoísta comprimiu meu peito, cortou meu fôlego e me impediu de dizer que, na verdade, eu quero muito mais.

"TUA" Anavitória


terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Meu maracujá não é de gaveta

Em meio a ausência de todas as cores, reconheci o amarelo brilhante do maracujá. Ele já foi da minha vizinha, mas caído no chão da noite é muito mais meu.

O desgastante bate boca com o chefe ao final do expediente cansou-me mais do que as 8 horas regidas pelo contrato. Não as chamo de horas trabalhadas, mas de horas desculpadas, pois nelas encontram-se as desculpas para eu não saber quando e porque meu maracujá caiu no colo da terra e não no meu. Que horas aconteceu? Também não sei, mas estou desculpada.

Em tempos passados, quando eu ainda nem morava aqui no mato, o pé de maracujá se apossou da copa do flamboyant. Desde então, os frutos se revelam apenas aos que ousam olhar para cima, para além do próprio umbigo, além do caminho a frente ou dos passos atrás. E, lá em cima, ousados modernos avistam pontinhos amarelos ou verdes  no céu, ora azul celeste ora branco encoberto.

Hoje, eu quero mesmo é adormecer induzida pelo doce do meu maracujá. E amanhã, quem sabe novamente encontrar em minha viela mais motivos para acordar?

"Dance mochileira que eu toco a guitarra" Almir Sater


quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Amigo Íntimo

Nem se eu forçar muito a memória eu recordo a primeira vez. Mas, quando foi mesmo a última vez que nos conhecemos? Lembro. Foi no final do ano passado, quando apresentamos e aproximamos nossas imperfeições. Mais felizes, criamos intimidade.
   
Conhecer alguém neste mundo não é ter intimidade. Ser íntimo de alguém envolve frequentar a casa, saber o nome do pai e da mãe, abrir a geladeira, colocar os pés no sofá, tomar banho de mar sem se importar com a impressão que vai causar ou com a insegurança que um biquini dá.

Conhecer alguém é superficial. Sabe-se mais ou menos onde fica o apê; na despedida, sempre vai aparecer; não tratando-se de um órfão, dos pais não precisa nem saber e marcar um chope no final do expediente num quiosque coladinho ao escritório é o mais perto que chegam de um passeio na praia.

Intimidade, meu amigo, é para quem quer. Conhecer, todo mundo pode. Intimidade exige tempo, companheirismo, entrega e sofrimento. É! Sofrimento. Dói abrir as janelas e desnudar os segredos da alma para alguém que ainda não é seu amigo de infância.

Mas não é só sofrimento. É muito bom saber que nós não nos tornamos íntimos de qualquer um assim a torto e a direito (e para explicar porque tal seleção é feita, a história de vida de cada um que conte o seu conto, aumentando de vez em quando um ponto). Francamente, para ser íntimo de alguém, há a necessidade inegociável de se mostrar mais o torto. O direito é para o conhecido ver, mostrar ou querer. Pensando cá com meus grilões, isto talvez explique o porquê do direito ser mais aparente e nada profundo. 

Tudo isto eu pensei enquanto fazia a primeira viagem de avião depois de nos tonarmos íntimos. O primeiro adeus já me mata de saudade, mas me trouxe algo muito bom! Explico. Antes dessa tal intimidade, os únicos pensamentos em minha cabeça nas nuvens me matavam na primeira oportunidade. Intimidade, a partir de agora, para mim, é indispensável. Hoje, pensar em nós salvou-me de mim mesma

"Amigo é Casa" Zélia Duncan


domingo, 11 de outubro de 2015

Ihhh está carente!



Blog é interessante. Parece um "e fala demais por não ter nada a dizer" às avessas.

Gosto do Procura-se Poesia e do Bacanérrimo. Neles consigo enxergar muito das autoras: uma minha amiga a outra, nem tanto. Porém, gostaria de ler mais, muito mais sobre elas. Porque existe muito mais!

Gosto de blogs, essa "instituição falida", meio esquecida, mas uma verdade vivida nos corações dos apaixonados pela escrita. Escrita em papiro, escrita em papel, escrita em phones, escrita em apps. Enfim, escrita. Enfim, apaixonados. Estou me sentindo uma órfã, meio carente de atualizações nos meus blogs preferidos.

Aqui vai um vídeo para mostrar a contradição de mim para mim.

"Jardim da Fantasia" Paulinho Pedra Azul

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Paz, amor e muito verde!

Até o dia 31 de agosto, o ProjetoCarioquinha oferece diferentes passeios aos moradores da Cidade Maravilhosa com preços que cabem no nosso bolso. Eu decidi aproveitar o fato de ser moradora da Ilha de Guaratiba e pagar bem baratinho para conhecer meu vizinho, o Sítio Roberto Burle Marx. Em dias normais, o ingresso custaria dez reais, mas, durante o Projeto Carioquinha, você só vai pagar cinco. Olha que charmoso este estacionamento coberto. A cara do Burle Marx. 
        

O paisagista amava as bromélias. Por este motivo, o lugar está cheio destas maravilhas da criação.



           No dia da minha visita, a guia era a Lívia, moradora da região. Ela nos contou um pouquinho de como tudo começou. "O Roberto Burle Marx comprou esse sítio em 1949 em sociedade com seu irmão, Guilherme Siegfried Marx. Quando chegaram aqui, existia uma plantação de bananas, uma casa, uma igreja em ruínas e algumas árvores. Preocupado com o que seria feito do sítio depois de sua morte, Roberto comprou a parte de seu irmão e em 1985 ele doou para o Governo Federal. Com o dinheiro do Governo foi construído um prédio para ser a sede da administração do Sítio."

              Aos 82 anos, Burle Marx decide flertar com a pintura e surpreende ao revelar-se artista das tintas também. São dele estes dois quadros expostos em seu Sítio. 


         Movido pela nova paixão, Burle Marx audaciosamente montou um atelier para abrigar a doce amante pintura onde antes só reinava o paisagismo, seu amor maior. Mas infelizmente, sua incursão pelas telas foi breve. Dois anos após a inauguração deste espaço, em 1994, o artista verde descansou. Para nosso deleite, porém, a história está viva e misturada ao ar puro e fresco do Sítio.


         

         

A Lívia confirmou o que eu já desconfiava, os gringos são visitantes assíduos. “Metade metade”, disse ela quando eu perguntei se passeavam por aqui mais brasileiros ou estrangeiros. Na minha turma tinha cerca de 30 pessoas. Muitos gringos captando tudo o que as lentes de suas 'Nicons' ou 'Canons' podiam levar para a França e a Argentina. Os visitantes estrangeiros sabem que essas lembranças não pesam na bagagem, mas enchem o coração de alegria, satisfação e gratidão. “Where are your from?” “France!”, respondeu a francesa desta foto aqui acompanhada de suas duas filhas. "What did you think?" "Its amazing!" Quer dizer: Ela achou tudo de bom!

       

A guia do Sítio Roberto Burle Marx confirmou que você, morador da Oeste, raramente passeia por esses bosques. O que está esperando? Venha encher seu pulmão de ar puro e o coração de boas histórias. As visitas podem ser agendadas pelo telefone 21 2410-1412 ou pelo email visitas.srbm@iphan.gov.br, de segunda à sábado em dois horários: 9h30 da manhã ou 01h30da tarde. E fique esperto! Sábado é o dia mais disputado!